Apresentação


Este artigo abre uma nova série de textos sobre o LaTeX. A ideia é ir entendendo, aos poucos, o que ele é, como funciona e como trabalhar com ele no dia a dia. O foco vai ser, principalmente, no uso com leitores de tela, para que esse caminho fique mais claro e mais acessível para pessoas com deficiência visual.

Vamos bem do começo: o que é esse LaTeX? A explicação oficial diz que o LaTeX é:

“um sistema de preparação de documentos para tipografia de alta qualidade”.

Calma: essa frase parece difícil, mas a ideia não é tão complicada assim.

Tipografia é, basicamente, o jeito de fazer o texto ficar bonito e arrumado na página. Isso inclui o espaço entre as linhas, o lugar onde cada parágrafo vai quebrar, o jeito como as fórmulas ficam alinhadas e como as seções aparecem numeradas.

Sabe quando um documento parece bem-feito, mesmo que você não saiba dizer exatamente por quê? Na maioria das vezes, é a tipografia fazendo esse trabalho sem chamar atenção.

O próprio Projeto LaTeX também explica que ele é:

“mais usado para documentos técnicos ou científicos de médio a grande porte, mas pode ser usado para quase qualquer forma de publicação”.

Em outras palavras, com ele dá para escrever desde uma tese até um currículo.

O LaTeX não está sozinho, ele faz parte de um conjunto maior. Na prática, ele é um grupo de comandos. Esse grupo é chamado de macro pacote, ou em inglês, macro package. Esses comandos foram criados em cima de um sistema mais básico, que se chama TeX.

Na prática o LaTeX é um macro pacote muito usado para o TeX. Dá para imaginar assim: o TeX é a parte de dentro que faz a máquina funcionar, e o LaTeX é a parte que deixa tudo mais fácil de usar.

Se você quiser pensar em um exemplo mais concreto, pode imaginar assim: o TeX é o motor, e o LaTeX é como os pedais e outros controles do carro, que ajudam você a usar esse motor sem precisar mexer direto na parte de dentro.

E como se fala esse nome? A documentação diz que “LaTeX” soa mais ou menos como “Lah-tech” ou “Lay-tech”. O “X” do fim vem de uma letra grega chamada $\chi$. Por isso, ele tem um som mais parecido com um “k” soprado, e não com “ks”.

Aqui no Brasil, muita gente fala “latéqui” ou “leitéqui”, e isso também é comum. O mais importante é prestar atenção na escrita, porque ela é um pouco diferente. O nome fica LaTeX, com letras maiúsculas e minúsculas misturadas mesmo.

O próprio Projeto LaTeX avisa logo no começo que LaTeX não é um processador de texto. Isso quer dizer que ele funciona de um jeito diferente dos editores mais comuns. Nesses editores, você escreve e já vai mexendo na aparência do texto ao mesmo tempo. Você escolhe a fonte, o tamanho, a posição e outras coisas com o mouse. No LaTeX, não é assim.

Você escreve comandos dizendo o que cada parte do texto é. Por exemplo, você diz que algo é um título ou que algo é uma seção. Depois disso, o sistema organiza a aparência sozinho. Isso pode parecer um detalhe pequeno, mas é uma diferença muito importante. É ela que ajuda a explicar quase tudo o que vem depois.

E, pela minha experiência, é também por isso que o LaTeX é tão acessível para quem não enxerga. Se não há formatação visual para conferir, então o leitor de telas não encontra esse tipo de barreira.

O LaTeX é um software livre e é distribuído pela licença LaTeX Project Public License, a LPPL. Isso quer dizer que qualquer pessoa pode baixar, usar e estudar essa ferramenta de graça. Entre você e o LaTeX, não existe nenhuma barreira de custo.

Com isso, já dá para ir apresentando o LaTeX aos poucos e ir montando esse entendimento passo a passo, de um jeito que vai ficando mais fácil de se compreender a cada etapa. Assim, o caminho vai ficando menos assustador e muito mais possível.

Com qual finalidade o LaTeX foi desenvolvido


A principal função do LaTeX, que vem do TeX, é criar documentos com aparência bem-feita, principalmente quando há fórmulas matemáticas.

Antes de existirem sistemas como o TeX, montar as contas e expressões matemáticas mais complexas de um jeito organizado dava muito trabalho e, em geral, precisava ser feito por profissionais em gráficas. Em computadores comuns, o resultado costumava ser mais limitado e com qualidade não tão boa.

Outra função importante do LaTeX, e uma ideia central dele, é separar o conteúdo da aparência. Ou seja, a ideia de separar o que é estética do que é de fato informação faz parte do núcleo do projeto.

A documentação oficial do Projeto LaTeX explica que o sistema incentiva quem escreve a não ficar tão preocupado com o visual do documento, mas a se concentrar em colocar o conteúdo certo. Ela também diz que é melhor deixar o visual do documento separado, enquanto a pessoa autora se dedica à escrita somente.

Na prática, isso quer dizer que, enquanto escreve, você só precisa dizer o que cada parte do texto é. Por exemplo, você marca que aquilo é um título de seção, uma equação ou uma citação.

Depois disso, o LaTeX organiza tudo sozinho e aplica, de forma automática, o jeito certo de mostrar cada parte. Com isso, quem escreve ganha tempo, mantém o texto mais organizado e, como vamos observar, também ganha em acessibilidade, porque trabalha o tempo todo com texto estruturado, e não com formatação visual feita manualmente.

Como o LaTeX foi desenvolvido


A história começa com o TeX, criado pelo cientista da computação Donald E. Knuth, da Universidade de Stanford. O CTAN registra de forma direta que o projeto TeX começou em 1978, quando Knuth estava revisando o segundo volume de The Art of Computer Programming, ou “A Arte de Programar Computadores” em português.

O TeX, de Donald Knuth


No fim da década de 1970, ele ficou insatisfeito com a baixa qualidade com que a matemática dos seus livros estava sendo impressa. Então decidiu criar, por conta própria, um sistema de composição digital capaz de reproduzir a beleza da tipografia tradicional.

Knuth ficou conhecido pelo cuidado extremo com a estabilidade do programa. Os números de versão do TeX vão se aproximando do número $\pi$, e a versão registrada no CTAN é a $3.141592653$, com direitos autorais datados de 1982.

A explicação mais completa sobre o sistema está no próprio livro The TeXbook. O TeX, porém, era muito técnico, apesar de ser muito poderoso. Por isso, escrever um documento direto nele dava bastante trabalho.

A chegada do LaTeX, com Leslie Lamport


Foi aí que entrou Leslie Lamport. No começo da década de 1980, ele precisava escrever seus próprios textos e criou, em cima do TeX, um conjunto de macros que automatizava tarefas comuns de quem escreve, como fazer seções, listas, referências e títulos.

Esse conjunto de macros passou a se chamar LaTeX, em uma junção informal de Lamport com TeX. Em 1986, a editora Addison-Wesley publicou o manual de Lamport, LaTeX: A Document Preparation System, que acabou virando uma referência clássica para autores.

Do LaTeX 2.09 ao LaTeX2e


Com o tempo, o desenvolvimento do LaTeX passou para uma equipe chamada LaTeX3 Project. Em junho de 1994, uma versão padronizada e unificada, o LaTeX2e, substituiu a versão anterior, a 2.09, como registra a documentação do projeto. É essa a base que continua sendo usada até hoje, com atualizações regulares.

Também vale lembrar que, em 2013, Leslie Lamport recebeu o Prêmio Turing, que é a maior distinção da área de ciência da computação. Embora o prêmio tenha sido dado principalmente por suas contribuições para sistemas distribuídos, ele também mostra o peso intelectual da pessoa que criou o LaTeX.

Principais aplicações do LaTeX hoje


A documentação oficial do LaTeX diz que ele pode ser usado para escrever:

  • Artigos de periódicos
  • Relatórios técnicos
  • Livros
  • Apresentações de slides

Ela (a documentação) também destaca que o sistema ajuda bastante quando o documento é grande e tem seções, referências cruzadas, tabelas e figuras.

Além disso, o LaTeX é muito usado para escrever fórmulas matemáticas mais complexas, para fazer tipografia matemática avançada, para gerar bibliografia e índice de forma automática, para compor textos em mais de um idioma e para incluir imagens e cores.

Na prática, o LaTeX virou o padrão mais comum para a comunicação científica em áreas como matemática, física, ciência da computação e engenharia. Muitos periódicos e editoras científicas oferecem modelos prontos em LaTeX, e é muito comum que teses, dissertações e livros técnicos sejam escritos nele.

Tudo isso funciona dentro de um ecossistema vivo e colaborativo. O CTAN reúne milhares de pacotes criados pela comunidade, e o TeX Users Group, conhecido como TUG, é a principal organização internacional de usuários desse mundo. E tem mais uma coisa importante: tudo isso é software livre, sem custo de uso.

Por que o LaTeX é importante para pessoas cegas


O motivo de o LaTeX ser tão importante para pessoas cegas é simples e, ao mesmo tempo, muito significativo: no LaTeX, o documento é escrito como texto puro e em linha. Tudo, até a matemática mais complexa, aparece como uma sequência comum de caracteres.

Assim, o leitor de tela pode ler o conteúdo do começo ao fim, e a linha braille pode mostrar cada parte do texto da mesma forma que mostraria qualquer outro conteúdo escrito.

Para entender por que isso faz diferença, vale comparar com outra opção. Em editores visuais do tipo “o que você vê é o que você obtém”, uma fração aparece com um número em cima do outro, e uma matriz aparece como uma grade em duas dimensões. Esse jeito de mostrar a matemática foi pensado para ser visto.

Ele depende da posição dos elementos na página para passar o significado. Para quem usa leitor de tela, isso costuma ser uma grande dificuldade, porque tanto a fala quanto o braille funcionam de forma linear. A ênfase na notação visual cria dificuldades específicas para dispositivos que leem texto em voz alta ou usam linhas braille.

O LaTeX resolve esse problema desde o início. Exemplo: como a fração \frac{a+b}{c-d} aparece no código apenas como uma sequência de caracteres em linha, uma pessoa cega pode ler, escrever e editar esse conteúdo sem precisar de nenhuma etapa separada no meio do processo.

Não é necessário navegar por uma estrutura visual em duas dimensões. Basta ler a linha. Por isso, na comunidade de matemáticos e cientistas cegos, o LaTeX é visto como uma base de trabalho muito útil.

Esse ponto aparece, por exemplo, na documentação do projeto de acessibilidade latex-access, uma ferramenta de terceiros e não oficial. Segundo essa documentação, o LaTeX é um bom sistema para matemáticos e cientistas cegos porque é um código linear e, por isso, o usuário não precisa lidar diretamente com notações bidimensionais, como frações e vetores-coluna.

Em resumo, enquanto muitas ferramentas fazem a pessoa cega lidar com uma forma de representação pensada principalmente para a visão, o LaTeX já funciona em um formato de texto linear, que combina de maneira natural com as tecnologias assistivas. Nesse caso, a acessibilidade não aparece depois como adaptação. Ela já faz parte da própria linguagem.

O que é possível fazer com o LaTeX


Com base em tudo que foi dito, o que uma pessoa cega consegue efetivamente realizar com o LaTeX?

  • Escrever textos completos: como artigos, listas de exercícios, provas, monografias, dissertações e teses. O exemplo histórico de T. V. Raman, que escreveu sua tese de doutorado em matemática aplicada usando a família TeX/LaTeX, mostra que não há limite de complexidade.
  • Comunicar-se com colegas visuais: esse ponto é muito importante. Como o arquivo .tex é texto puro, o mesmo arquivo serve para as duas pessoas. A pessoa visual compila e lê o PDF formatado, e a pessoa cega lê e edita o código-fonte em LaTeX. Não existe uma “versão adaptada” separada que fique desatualizada. Existe um único documento, lido de duas formas.
  • Produzir documentos acessíveis para outras pessoas: com os recursos mais recentes de PDF marcado, quem escreve em LaTeX pode gerar um PDF cuja matemática é lida corretamente por leitores de tela de terceiros, ajudando a tornar toda essa cadeia mais acessível.

Durante muito tempo, a notação matemática, por ser tão visual, funcionou e ainda funciona como uma barreira para estudantes e pesquisadores cegos. Aprender LaTeX é, nesse sentido, ganhar autonomia: poder escrever a própria matemática, ler a dos outros e participar plenamente da conversa científica.

Resumo


Esse texto foi uma apresentação do LaTeX, sua história, os motivos pelos quais ele e o TeX foram desenvolvidos e como podem colaborar para a acessibilidade de pessoas cegas. Essa colaboração é ainda mais importante no estudo das ciências exatas, por conta da linearização da linguagem matemática.

Com toda essa introdução teórica realizada, o que será feito no artigo seguinte é literalmente mostrar a prática. Serão escritos documentos, apresentados os pacotes, a geração de PDFs acessíveis dentre outros pontos.

Para aprofundar os pontos tratados aqui, apresento na próxima seção as referências que serviram de base para este levantamento teórico. Se alguém quiser, pode fazer buscas mais específicas antes de seguir para a parte prática, isso fica a seu critério.

Referências


  • The LaTeX Project. An introduction to LaTeX ("About"). Disponível em: https://www.latex-project.org/about/
  • The LaTeX Project. The LaTeX3 Project. Disponível em: https://www.latex-project.org/latex3/
  • The LaTeX Project. Help and documentation. Disponível em: https://www.latex-project.org/help/
  • The LaTeX Project. News (inclui o anúncio de 5 de março de 2026 e o estudo de viabilidade de 30 de novembro de 2020). Disponível em: https://www.latex-project.org/news/
  • The LaTeX Project. The LaTeX Project Public License (LPPL). Disponível em: https://www.latex-project.org/lppl/
  • CTAN — Comprehensive TeX Archive Network. Página inicial. Disponível em: https://ctan.org/
  • CTAN. TeX e Package: tex. Disponível em: https://ctan.org/tex e https://ctan.org/pkg/tex. Acesso em: 2 jun. 2026.
  • CTAN. Package: latex. Disponível em: https://ctan.org/pkg/latex. Acesso em: 2 jun. 2026.
  • CTAN. Package: amsmath. Disponível em: https://ctan.org/pkg/amsmath
  • CTAN. Package: amsthm. Disponível em: https://ctan.org/pkg/amsthm
  • CTAN. Package: glossaries. Disponível em: https://ctan.org/pkg/glossaries
  • CTAN. Package: pgfplots. Disponível em: https://ctan.org/pkg/pgfplots
  • CTAN. Package: pgf / TikZ. Disponível em: https://ctan.org/pkg/pgf
  • CTAN. Package: beamer. Disponível em: https://ctan.org/pkg/beamer
  • TeX Users Group (TUG). TeX Live. Disponível em: https://www.tug.org/texlive/
  • The American Mathematical Society e The LaTeX Project. User's Guide for the amsmath Package (amsldoc). Disponível em: https://www.ams.org/arc/tex/amsmath/amsldoc.pdf
  • Michael Downes e Barbara Beeton (AMS). Short Math Guide for LaTeX. Disponível em: https://ctan.org/pkg/short-math-guide
  • World Wide Web Consortium (W3C). Mathematical Markup Language (MathML) Version 4.0 (W3C Working Draft). Disponível em: https://www.w3.org/TR/mathml4/
  • World Wide Web Consortium (W3C). Comunicados de imprensa sobre o MathML e acessibilidade (1998 e 2010). Disponível em: https://www.w3.org/Press/1998/MathML-REC-fact.html e https://www.w3.org/2010/09/mathml-pr.html. Acesso em: 2 jun. 2026.
  • NV Access. NVDA 2026.1 — notas de versão. Disponível em: https://www.nvaccess.org/post/nvda-2026-1/
  • NV Access. NVDA User Guide. Disponível em: https://download.nvaccess.org/documentation/userGuide.html
  • Braille Authority of North America (BANA). Nemeth Braille Code for Mathematics and Science Notation. Disponível em: https://www.brailleauthority.org/nemeth-code
  • The LaTeX Project (LaTeX3). Tagging Project. Disponível em: https://latex3.github.io/tagging-project/
  • CTAN. Package: tagpdf. Disponível em: https://ctan.org/pkg/tagpdf
  • T. V. Raman. Página pessoal (autor do AsTeR). Disponível em: https://tvraman.github.io/
  • T. V. Raman. AsTeR — Audio System for Technical Readings. Repositório: https://github.com/tvraman/aster-math; resumo em: http://itd.athenpro.org/volume1/number4/article2.html. Acesso em: 2 jun. 2026.
  • Cornell Chronicle. Computer program reads math text aloud for visually impaired (1996). Disponível em: https://news.cornell.edu/stories/1996/01/computer-program-reads-math-text-aloud-visually-impaired
  • T. V. Raman. Audio System for Technical Readings. Springer, Lecture Notes in Computer Science 1410. Disponível em: https://link.springer.com/book/10.1007/BFb0054977
  • James Yu. LaTeX Workshop — extensão para o VS Code (projeto de terceiros). Disponível em: https://github.com/James-Yu/LaTeX-Workshop
  • Yihui Xie. TinyTeX — distribuição TeX leve (projeto de terceiros). Disponível em: https://yihui.org/tinytex/
  • MathJax. Documentação de acessibilidade (projeto de terceiros). Disponível em: https://docs.mathjax.org/en/latest/basic/accessibility.html e https://docs.mathjax.org/en/latest/basic/a11y-extensions.html. Acesso em: 2 jun. 2026.
  • MathCAT — Math Capable Assistive Technology (projeto de terceiros, sob o DAISY Consortium). Disponível em: https://daisy.github.io/MathCAT/
  • latex-access — tradução de LaTeX para braille e fala em tempo real (projeto de terceiros). Disponível em: https://latex-access.github.io/
  • TeX4ht — conversão de LaTeX para HTML, XML e braille (parte do ecossistema TeX). Disponível em: https://tug.org/tex4ht/
  • Donald E. Knuth. The TeXbook. Addison-Wesley, 1984.
  • Leslie Lamport. LaTeX: A Document Preparation System. Addison-Wesley, 1986.