Apresentação
Este artigo apresenta o Fala Fórmula, uma ferramenta digital gratuita do projeto PCD na Escola. Ela converte expressões matemáticas escritas em LaTeX, linguagem muito usada em textos científicos para representar fórmulas, em descrições em português brasileiro, acessíveis por leitores de tela e linhas Braille.
Assim como a tabela periódica acessível, a ferramenta parte de uma barreira real no acesso ao conhecimento científico e busca superá-la com tecnologias web abertas, gratuitas e sem necessidade de instalação.
A questão central deste trabalho pode ser resumida de forma simples, embora exija respostas técnicas mais amplas: como tornar compreensível, por som ou tato, uma fórmula matemática criada originalmente para leitura visual em duas dimensões?
Para responder a essa questão, o texto reúne estudos sobre acessibilidade em notação matemática, examina as soluções disponíveis, compara essas alternativas com a proposta desenvolvida e apresenta a arquitetura e os principais recursos da ferramenta.
A proposta tem como base a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (BRASIL, 2015), que reconhece a tecnologia assistiva como um direito, e parte do princípio de que a acessibilidade é essencial para a equidade na educação. Quando a Matemática é apresentada como imagem inacessível ou código difícil de compreender, o problema não está na pessoa estudante, mas no sistema.
A divulgação desta proposta de Tecnologia Assistiva busca fortalecer uma educação mais inclusiva e justa, especialmente no ensino de Matemática para pessoas com deficiência visual, garantindo condições reais de aprendizagem, autonomia e participação na transformação social.
A Matemática como linguagem visual e o desafio da bidimensionalidade
Antes de apresentar as soluções técnicas, é importante compreender por que a Matemática é um desafio específico para a acessibilidade. Isso se deve à própria estrutura da sua linguagem. Ao longo dos séculos, a escrita matemática desenvolveu um sistema de notação capaz de representar relações abstratas com poucos símbolos.
Frações, expoentes, índices, raízes, integrais, somatórios, matrizes, derivadas e sistemas de equações reúnem, em uma única linha visual, informações que exigiriam várias frases se fossem explicadas em linguagem comum. Essa capacidade de concentrar muitos significados em poucos símbolos é uma característica central da Matemática.
O problema é que essa eficiência se apoia, quase inteiramente, em um recurso visual: a posição espacial dos símbolos. Em uma fração, o numerador fica acima da linha e o denominador, abaixo.
Em uma potência, o expoente fica deslocado para cima da base. Em uma integral definida, os limites ficam um acima e outro abaixo do sinal, e o integrando, à direita. O mesmo princípio espacial rege índices, matrizes e somatórios.
Esses elementos não são acessíveis para pessoas que não enxergam. Ao contrário de um texto comum, cujo sentido pode ser acompanhado em uma leitura sequencial, as expressões matemáticas possuem uma estrutura bidimensional.
Já o leitor de telas interpreta o conteúdo em uma única direção, da esquerda para a direita, em um fluxo sonoro linear (NAPIVOSKI; BARWALDT; SIMAS, 2024). Assim, surge a questão prática: como converter uma estrutura espacial em uma sequência sonora sem comprometer seu significado?
Um exemplo ajuda a compreender melhor esse risco. Considere a expressão: $y = \frac{1}{2} + x$.
Em uma leitura linear simples, como “y igual a um sobre dois mais x”, podem surgir duas interpretações:
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a fração pode indicar apenas um meio, com o x somado depois,
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ou o denominador pode abranger toda a expressão “dois mais x”.
No papel, a posição dos símbolos elimina essa dúvida rapidamente. No áudio, porém, quando a leitura não mostra com clareza onde a fração começa e termina, a ambiguidade fica para quem escuta.
Esse exemplo, usado por Szesz Junior (2021) para defender o uso de marcadores explícitos, resume o problema: na linearização, não se perde apenas a forma visual da fórmula, mas também o seu significado.
O que se perde quando a fórmula vira imagem
Em ambientes digitais, fórmulas matemáticas costumam ser exibidas como imagens, nos formatos PNG, JPEG ou GIF, geradas por editores de texto ou por softwares de produção científica. Por padrão, essas imagens não são acessíveis.
Para que tecnologias assistivas possam interpretar seu conteúdo, é preciso incluir uma descrição em texto alternativo, chamada no HTML de atributo alt. Essa orientação está prevista nas Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web, as WCAG (W3C, 2023a).
Embora pareça simples, essa solução é pouco viável na prática. Um livro didático pode reunir dezenas de equações em cada capítulo, enquanto um trabalho acadêmico pode conter centenas. Descrever todas com precisão exige um esforço editorial difícil de manter de forma consistente.
Além disso, quando o texto alternativo existe, muitas vezes é improvisado e sem padrão: uma expressão descrita como “elevado a” em um capítulo pode aparecer como “ao quadrado” em outro; “fração” pode ser substituída por “sobre”. Essa falta de uniformidade dificulta a compreensão e torna a leitura mais cansativa.
Pesquisas recentes mostram que esse problema continua presente até em publicações formais.
Ribeiro, Andrade e Freire (2025) analisaram a acessibilidade de fórmulas matemáticas em artigos científicos de grandes editoras internacionais, com o apoio de leitores de tela e outras ferramentas, e identificaram limitações relevantes na leitura e na interpretação desses conteúdos.
Se artigos científicos, produzidos sob normas editoriais rigorosas, ainda não garantem fórmulas acessíveis, os materiais didáticos improvisados no cotidiano escolar tendem a ser ainda mais vulneráveis.
O Braille matemático: avanço necessário, alcance limitado
Na leitura tátil, o Braille é a tecnologia mais consolidada. No Brasil, a Comissão Brasileira do Braille, em parceria com a Comissão de Braille de Portugal, publicou em 2006 o Código Matemático Unificado para a Língua Portuguesa (CMU).
O documento padroniza, no Sistema Braille, a representação de prefixos, números, operações, álgebra, conjuntos, geometria e funções (BRASIL, 2006).
O CMU trouxe um avanço importante para a educação matemática inclusiva, pois permite que pessoas cegas leiam e escrevam Matemática com precisão notacional, especialmente em ambientes escolares formais. Ainda assim, seu uso encontra limites materiais e digitais.
No aspecto material, a impressão em Braille exige equipamento especializado, papel adequado e tempo de produção, já que uma única página impressa pode se transformar em várias páginas em Braille. No ambiente digital, a leitura por linha Braille eletrônica depende de hardware ainda caro e pouco disponível no Brasil.
Além disso, o CMU funciona melhor para quem domina Braille com fluência, o que seria o ideal, mas não corresponde à realidade de todas as pessoas com deficiência visual.
Essa limitação é ainda maior entre quem adquiriu a deficiência na vida adulta ou estudou na educação básica sem apoio adequado. Assim, o Braille resolve parte do problema, mas não supre plenamente as demandas do uso cotidiano da Matemática em ambientes digitais acessados por leitores de tela, principalmente quando a interação ocorre apenas por áudio.
Educação, deficiência visual e direito de aprender
A deficiência visual inclui diferentes condições, desde a baixa visão até a cegueira.
Segundo o Ministério da Educação:
[...] a baixa visão ocorre quando há desde a percepção da projeção de luz até níveis de redução da acuidade visual que interferem ou limitam o desenvolvimento da pessoa.
Garrutti de Lourenço et al. (2020) explicam que ela corresponde a um comprometimento do funcionamento visual nos dois olhos, que não pode ser corrigido por óculos comuns, lentes de contato ou cirurgias.
A cegueira, por sua vez, vai da ausência total de visão à percepção mínima de luz e exige práticas educacionais apoiadas principalmente no tato e na audição (BRASIL, 2005).
No ensino de Matemática, porém, ainda é comum partir da ideia de que a pessoa estudante consegue ver a expressão no quadro ou no livro. Como observa a educadora Cristina Reis, que também tem baixa visão:
[...] a sociedade reconhece o que é extremamente visual, privilegiando a visualização como condição de conhecer, em um universo constituído por símbolos gráficos, imagens, letras e números.
No ensino de Matemática, esse problema aparece de forma ainda mais evidente. Quando a visão é tratada como condição necessária e essa condição não está disponível, a falha está no sistema, não na pessoa estudante.
A manutenção dessa barreira está ligada ao capacitismo, uma forma de discriminação baseada na ideia de que pessoas com deficiência seriam incapazes ou inferiores. Esse preconceito é estrutural:
Esse preconceito é tão forte na sociedade que atinge até instituições e pessoas que, em teoria, deveriam defender os direitos de grupos minorizados e marginalizados.
No ambiente digital, o capacitismo frequentemente se manifesta pela omissão: botões sem rótulo, fórmulas sem alternativa textual ou plataformas cuja documentação ignora a acessibilidade. Não é uma agressão explícita, mas uma ausência que exclui de modo silencioso.
Por isso, ferramentas educacionais digitais devem ser concebidas desde o início com acessibilidade como requisito, e não tratá-la como um ajuste posterior.
Também é necessário destacar um alerta recorrente na literatura brasileira recente: a tecnologia, isoladamente, não garante inclusão. Em uma revisão sobre tecnologias assistivas no ensino de Matemática para estudantes cegos, Silva et al. (2025) afirmam que a barreira mais persistente não está apenas na falta de recursos tecnológicos, mas na dificuldade de incorporá-los às práticas pedagógicas e à formação docente.
Uma ferramenta pode transformar a fórmula em áudio, mas é a mediação pedagógica que a torna compreensível. O Fala Fórmula parte dessa ideia: não substitui a pessoa docente, e sim apoia seu trabalho e fortalece a autonomia de quem aprende.
Como leitores de tela leem (ou deixam de ler) Matemática
Leitores de tela são programas que transformam o conteúdo visual de uma interface em áudio ou em Braille tátil. Entre os mais utilizados estão NVDA e JAWS, no Windows; VoiceOver, no macOS e iOS; Orca, no Linux; e TalkBack, no Android.
Todos funcionam com a mesma lógica: percorrem a estrutura semântica da interface, chamada árvore de acessibilidade, que é uma representação simplificada criada pelo navegador a partir do HTML, e a convertem em uma sequência sonora.
Esse mecanismo, já explicado em detalhe neste site no artigo sobre como funcionam os leitores de tela, depende de uma marcação semântica correta para funcionar bem: botões devem ser identificados como botões, cabeçalhos como cabeçalhos e imagens precisam ter texto alternativo. Quando essa estrutura falha, a leitura também falha (W3C, 2023a; W3C, 2023c).
Para a Matemática, há três cenários possíveis hoje, todos imperfeitos:
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Fórmula como imagem sem texto alternativo. O leitor de tela pode ficar em silêncio, ignorar o elemento ou anunciar apenas “imagem”. Com isso, a pessoa estudante deixa de acessar o conteúdo.
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Fórmula em LaTeX puro no texto. O leitor de tela lê comandos como
\frac,\sqrt,^2e_2de forma literal. Quem conhece LaTeX pode acompanhar a expressão; quem não conhece ouve uma sequência de barras invertidas, chaves e símbolos. Napivoski, Barwaldt e Simas (2024) apontam potencial educativo nesse formato, mas observam que a leitura literal dos comandos não corresponde a uma narração natural da fórmula. -
Fórmula em MathML. O Mathematical Markup Language, ou MathML, é uma recomendação do W3C (2023b) criada para descrever expressões matemáticas de modo semântico e facilitar a leitura por tecnologias assistivas. Em teoria, leitores de tela compatíveis conseguem narrar a fórmula; na prática, porém, o suporte varia entre navegadores, leitores de tela e sistemas operacionais, o que torna seu uso isolado insuficiente.
O caso dos documentos em PDF merece atenção especial, pois esse é o formato em que circula grande parte do material acadêmico. Larson e Vogt (2023), em publicação da Sociedade Americana de Matemática, sintetizam o problema: leitores de tela costumam reorganizar as equações de um PDF de modo confuso, muitas vezes a ponto de torná-las incompreensíveis, porque o PDF gerado pelo LaTeX preserva apenas a aparência da fórmula e elimina sua semântica.
Bibliotecas de renderização foram criadas para diminuir essa lacuna na web. O MathJax, em sua versão 4, inclui extensões de acessibilidade baseadas no Speech Rule Engine, com descrições faladas em vários idiomas, atributos ARIA e suporte a Braille (MATHJAX, 2025). A KaTeX, por sua vez, prioriza desempenho e renderização síncrona, mas não oferece, por padrão, descrições textuais em linguagem natural (KATEX, 2024).
Como será discutido adiante, essa diferença ajuda a explicar o espaço ocupado pelo Fala Fórmula: a ferramenta utiliza a KaTeX para renderizar a fórmula e assume a responsabilidade de descrevê-la em português.
Tecnologia assistiva e desenho universal
A Lei Brasileira de Inclusão reconhece a tecnologia assistiva como direito da pessoa com deficiência (BRASIL, 2015) e, na classificação de Bersch (2017), o Fala Fórmula se enquadra entre as tecnologias assistivas de alta complexidade voltadas ao acesso à informação.
Junto desse conceito caminha o Desenho Universal: projetar para a maior diversidade possível de pessoas, sem necessidade de adaptação posterior.
Esses fundamentos já foram apresentados em detalhe na seção sobre tecnologias assistivas do artigo da tabela periódica acessível, e por isso não serão repetidos aqui.
O mesmo vale para o papel da internet e do desenvolvimento web como tecnologias assistivas, do HTML semântico ao WAI-ARIA: a seção sobre internet e desenvolvimento web daquele artigo descreve esses recursos um a um.
Para este texto, o ponto principal é simples: por ser uma página web baseada em padrões abertos, o Fala Fórmula funciona em qualquer sistema operacional, não exige instalação nem custo e se integra nativamente aos leitores de tela das diferentes plataformas.
O que já existe: um panorama das ferramentas
Esta seção apresenta as principais ferramentas e mecanismos de leitura matemática descritos na literatura e usados atualmente, com foco em duas questões: quais tipos de entrada cada solução aceita e em qual idioma realiza a leitura.
O que a pesquisa ensina antes das ferramentas
Antes de analisar cada ferramenta, é importante destacar o que a pesquisa da última década revelou sobre o problema, pois as soluções só podem ser compreendidas a partir dessas conclusões.
A primeira conclusão é que o principal obstáculo está na leitura linear, não na síntese de voz. Leitores de tela já produzem fala com boa qualidade há décadas; o que eles não conseguem fazer sozinhos é reconstruir, pelo áudio, a estrutura que a visão apreende de uma só vez.
Por isso, pesquisas recentes tendem a propor navegação ativa, permitindo que a pessoa explore a fórmula por partes, em vez de ouvi-la como um bloco único.
Guedes et al. (2023) identificaram três tipos de estratégia: leitura linear simples; navegação em árvore, na qual a pessoa parte da fórmula completa e acessa seus componentes; e exploração contextual por níveis de complexidade, abordagem adotada pelo grupo.
Ali, Khusro e Alahmadi (2024) seguiram caminho semelhante, com navegação por termos e fatores controlada pelo teclado. Já Kruger, De Wet e Niesler (2022) avançaram em outra direção ao transformar a equação em um ambiente espacial navegável com sonificação, buscando devolver ao áudio a informação de posição que a linearização elimina.
A segunda conclusão é que a dificuldade está, em sua origem, na semântica, e não na fala. Se o documento não preserva o significado da fórmula, nenhum leitor de tela consegue recuperá-lo depois.
Larson e Vogt (2023) demonstram esse problema no caso dos PDFs, o que explica por que todas as ferramentas analisadas a seguir dependem, de algum modo, de marcação estruturada.
A terceira conclusão é metodológica: as ferramentas mais eficazes foram desenvolvidas com as pessoas usuárias, e não apenas para elas. A tese que deu origem ao Math2Text passou por dois ciclos de desenvolvimento com estudantes cegos em associações de apoio no Paraná (SZESZ JUNIOR, 2021).
Da mesma forma, a adaptação brasileira do Access8Math resultou de uma avaliação formal com pessoas usuárias cegas (GUEDES et al., 2023).
Com essas conclusões como referência, o panorama a seguir analisa cada ferramenta a partir de três aspectos: o tipo de entrada que aceita, a saída que produz e o público que consegue atender de forma efetiva no contexto brasileiro.
AudioMath
O AudioMath, desenvolvido na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, está entre os precedentes mais antigos da área. A aplicação analisa documentos com fórmulas em MathML, converte essas expressões em texto e as envia a um sintetizador de voz (FERREIRA; FREITAS, 2006).
Apesar de seu papel histórico na produção em língua portuguesa, o AudioMath apresenta três limitações relevantes para o contexto brasileiro: utiliza português europeu, com convenções de leitura matemática diferentes das usadas no Brasil; exige materiais preparados previamente em um formato específico; e não recebe atualizações desde meados dos anos 2000, como aponta a literatura posterior (SZESZ JUNIOR, 2021).
Math2Text
O Math2Text, desenvolvido a partir da tese de doutorado de Albino Szesz Junior na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, é uma extensão para o navegador Chrome.
A ferramenta identifica fórmulas em MathML na página e acrescenta a cada uma delas uma descrição clara e não ambígua em português brasileiro, lida pelo leitor de tela da própria pessoa usuária (SZESZ JUNIOR, 2021).
A pesquisa que deu origem ao Math2Text se destaca pelo método: foram realizados dois ciclos de desenvolvimento centrado na pessoa usuária, com estudantes cegos de associações de apoio no Paraná. Também vem dessa pesquisa o exemplo da fração ambígua citado anteriormente.
É importante deixar claro o que o Math2Text faz bem. Para consumir conteúdos já publicados em MathML, o Math2Text oferece uma automação que ferramentas de autoria não substituem: a pessoa navega pela página, e as fórmulas recebem uma leitura acessível.
O Fala Fórmula atua em outra etapa do mesmo fluxo, ligada à autoria e ao estudo ativo: parte do LaTeX bruto, sem exigir conversão prévia para MathML, e também faz o caminho inverso, da fala para a notação.
Access8Math e a adaptação NavMatBR
O Access8Math é uma extensão do leitor de tela NVDA voltada à leitura de conteúdo matemático. Guedes et al. (2023) adaptaram a ferramenta ao português brasileiro e incorporaram o NavMatBR, recurso de exploração contextual que permite navegar pela fórmula por partes.
Em vez de ouvir toda a expressão de uma só vez, a pessoa pode avançar pelos componentes de uma fração ou de uma raiz e depois retornar à estrutura completa, usando apenas um novo atalho de teclado.
A opção por um único atalho foi deliberada: em estudo anterior do mesmo grupo, os participantes tiveram dificuldade para memorizar atalhos diferentes para cada estrutura.
Na avaliação com seis pessoas usuárias cegas, foram identificados 52 problemas de usabilidade. Ainda assim, os participantes avaliaram positivamente a redução da ambiguidade, o que evidencia tanto o valor da navegação estrutural quanto a maturidade ainda limitada da área.
Também nesse caso, a entrada é MathML, e a solução depende do NVDA instalado, restringindo seu uso ao Windows.
MathCAT e o Speech Rule Engine
Os dois motores de leitura matemática mais maduros em circulação internacional ilustram uma exclusão que costuma passar despercebida. O MathCAT, mantido pelo consórcio DAISY e usado como base de leitura matemática do NVDA, declara em sua documentação oficial que a fala está disponível apenas em inglês, espanhol, finlandês, indonésio, sueco, vietnamita e chinês; o português aparece somente na camada de Braille, por meio do código CMU (DAISY CONSORTIUM, 2025).
O Speech Rule Engine, motor que fornece as descrições faladas do MathJax 4, mantém regras de localização para onze idiomas, entre os quais o português não figura (SPEECH RULE ENGINE, 2025).
Dessa forma, quem depende dos motores de referência internacional pode obter uma fórmula narrada com excelência em inglês ou espanhol, mas não em português. Que os motores mais maduros do mundo, gratuitos e mantidos por instituições de referência, não narrem matemática em um dos idiomas mais falados do planeta diz muito sobre quem o campo tem considerado ao decidir para quais línguas vale a pena traduzir.
Síntese comparativa
O quadro a seguir resume as características das principais soluções, na data de publicação deste artigo.
Observação: em telas pequenas, deslize horizontalmente para ler todas as colunas da tabela.
| Ferramenta | Entrada | Exige conversão prévia | Idioma da fala | Leitura e escrita | Instalação |
|---|---|---|---|---|---|
| AudioMath (2006) | Arquivo pré-formatado | Sim | Português europeu | Só leitura | Aplicação própria |
| Math2Text (2021) | MathML na página | Sim | Português brasileiro | Só leitura | Extensão do Chrome |
| Access8Math-NavMatBR (2023) | MathML | Sim | Português brasileiro | Só leitura | NVDA + extensão (Windows) |
| MathCAT (DAISY) | MathML | Sim | Sem português (fala) | Só leitura | NVDA + extensão (Windows) |
| MathJax 4 + Speech Rule Engine | MathML (a partir do LaTeX da página) | Sim | Onze idiomas, sem português | Só leitura | Nenhuma (biblioteca) |
| Fala Fórmula (2026) | LaTeX digitado, colado, ditado por voz ou extraído de imagem e PDF | Não | Português brasileiro | Leitura e escrita | Nenhuma (funciona no navegador) |
A análise do quadro mostra um padrão: todas as soluções anteriores dependem de conteúdo já convertido para MathML, ou de arquivos previamente formatados, e se concentram apenas no uso de matemática já publicada.
Nenhuma aceita o LaTeX bruto presente em listas de exercícios, mensagens e rascunhos; nenhuma faz o caminho inverso, da fala para a notação; e, entre os mecanismos mantidos por instituições internacionais, nenhum oferece leitura em português.
A lacuna que permanece
Há ferramentas gratuitas que leem fórmulas em português brasileiro, como o Math2Text e o Access8Math-NavMatBR. Ambas cumprem bem esse papel, cada uma dentro de seu escopo.
Até onde alcançou a revisão de literatura realizada para este trabalho, o que ainda não existia era uma ferramenta gratuita capaz de narrar expressões em português brasileiro a partir de LaTeX, sem conversão prévia nem instalação, com desambiguação sensível ao domínio matemático, síntese de voz própria e conversão da fala para a notação.
É essa lacuna, específica na formulação e ampla no cotidiano de quem estuda, que o Fala Fórmula busca preencher.
O Fala Fórmula: princípios e proposta
A partir dos desafios discutidos nas seções anteriores e da lacuna identificada no panorama comparativo, foi desenvolvido o Fala Fórmula. A ferramenta se organiza em torno de quatro objetivos principais, que orientam sua arquitetura e sua interface:
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converter expressões em LaTeX em descrições em português brasileiro, adequadas para leitores de tela e linhas Braille;
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reproduzir o texto acessível em áudio na própria interface, permitindo que qualquer pessoa ouça como a fórmula será apresentada;
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aceitar diferentes formas de entrada, como digitação em LaTeX, exemplos prontos, paleta de símbolos, ditado por voz e envio de imagem ou PDF;
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oferecer uma pré-visualização visual fiel, para que pessoas visuais e não visuais acessem a mesma representação da fórmula.
O quarto objetivo merece uma palavra a mais, porque ele materializa o Desenho Universal discutido anteriormente. Em uma sala de aula, a pessoa docente visual e a pessoa estudante cega olham, por assim dizer, para o mesmo objeto: uma vê a fórmula desenhada, a outra ouve a descrição, e as duas representações nascem da mesma fonte, sem que nenhuma seja um anexo de “segunda classe” da outra.
A construção da ferramenta parte dos mesmos critérios de acessibilidade que orientam as demais ferramentas do projeto PCD na Escola:
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Compatibilidade com leitores de tela: a estruturação segue o HTML semântico e a especificação WAI-ARIA 1.2 (W3C, 2023c), para que cabeçalhos, botões, regiões dinâmicas e alertas sejam identificados corretamente.
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Independência das cores: toda informação transmitida visualmente também aparece em texto.
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Alto contraste: o modo escuro atende ao nível AAA das WCAG 2.2 (W3C, 2023a), o mais exigente da norma.
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Ajuste de texto e adaptabilidade: o conteúdo permanece legível sob ampliação, e o design responsivo se ajusta a celulares, tablets e computadores.
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Acessibilidade por teclado: todos os controles podem ser acionados sem mouse, com ordem de foco previsível.
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Privacidade por padrão: a conversão e a leitura acontecem inteiramente no dispositivo da pessoa; apenas o ditado por voz e o envio de imagem saem do aparelho, e os arquivos são descartados após o processamento.
Arquitetura e funcionamento
A solução foi estruturada em camadas separadas, cada uma com responsabilidade específica, para garantir manutenibilidade e extensibilidade. Em linhas gerais, o funcionamento tem três movimentos.
Primeiro, um analisador varre o conteúdo em busca de expressões matemáticas entre delimitadores LaTeX. Segundo, cada expressão é desenhada na tela pela biblioteca KaTeX (KATEX, 2024), garantindo a aparência tipográfica que a pessoa visual espera; esse desenho, porém, é deliberadamente escondido do leitor de tela com o atributo aria-hidden, porque a renderização visual da KaTeX não produz narração útil.
Terceiro, o tradutor da ferramenta gera a descrição em português e a insere, adjacente ao desenho, em um elemento de classe sr-only (screen reader only, em português, apenas leitor de tela): texto invisível na tela, mas plenamente presente na árvore de acessibilidade.
A escolha para usar sr-only em vez de um rótulo aria-label é intencional e nasceu de testes feitos durante o desenvolvimento: o rótulo tende a ser narrado em bloco único, dificultando a revisão, enquanto o texto sr-only é navegável palavra a palavra, com as setas do teclado.
Em uma fórmula longa de cálculo, poder voltar duas palavras e ouvir de novo faz diferença real. Nas fórmulas extensas, a descrição é ainda segmentada em partes, para que a navegação do leitor de tela avance por trechos com significado em vez de atravessar um parágrafo inteiro de uma vez.
As camadas do motor
O motor de conversão é escrito em JavaScript puro, sem dependência de frameworks, e organizado em módulos com papéis distintos:
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Camada de dados (
data.js): tabelas declarativas que mapeiam cerca de 400 comandos LaTeX para verbalizações em português, das letras gregas (\alphavira “alfa”) aos operadores relacionais (\leqvira “menor ou igual a”) e aos conjuntos numéricos (\mathbb{R}vira “os reais”). Alterar uma verbalização não exige tocar no analisador, o que torna a manutenção previsível. -
Camada de contextos (
contexts.js): implementa os domínios de leitura, descritos na próxima subseção. -
Camada de análise sintática (
parser.jse módulos auxiliares): o coração da ferramenta. Recebe o código LaTeX, identifica as estruturas compostas e constrói a sequência de segmentos descritivos, lidando com casos não triviais como frações encadeadas, raízes indexadas, derivadas parciais, integrais com limites, matrizes, sistemas de casos e tabelas. -
Camada de renderização e integração (
core.js): percorre a página, aciona a KaTeX e insere as descrições acessíveis, permitindo que a biblioteca seja embarcada em qualquer página web, como já acontece nos artigos deste site que exibem fórmulas. -
Camada reversa (
reverse.js): percorre o caminho oposto, da linguagem natural para o LaTeX, e sustenta o ditado por voz.
As construções suportadas incluem frações (inclusive aninhadas), raízes com índice, potências e índices, somatórios, produtórios, integrais com limites, limites, funções trigonométricas e logarítmicas, matrizes e sistemas, valor absoluto, piso e teto, letras gregas com variantes, conjuntos, lógica e relações, além de oito ambientes de equação do LaTeX (como equation, align e gather), lidos linha a linha.
Onze contextos de leitura
Um mesmo símbolo matemático muda de significado conforme a área. Em estatística, $\mu$ é a média e $\sigma^2$ é a variância; em álgebra linear, o sinal $\times$ entre vetores é o produto vetorial; em lógica, $\cap$ e $\cup$ correspondem à conjunção e à disjunção; em teoria dos conjuntos, a barra $\mid$ lê-se “tal que”.
Uma leitura que ignore o contexto obriga a pessoa a traduzir mentalmente o símbolo genérico para o significado da sua disciplina, um custo cognitivo que quem enxerga não paga.
O Fala Fórmula enfrenta isso com um seletor de contexto que ajusta a verbalização dos símbolos ambíguos. São onze contextos disponíveis: padrão, teoria dos conjuntos, álgebra linear, lógica, estatística, teoria dos números, cálculo, geometria, análise complexa, física e química.
Os dois últimos estendem o motor para além da Matemática: com a notação química (\ce) e de unidades (\pu), equações de reação, íons, isótopos e grandezas físicas ganham leitura própria, como se verá no passeio pela interface.
Convenções de verbalização
Traduzir notação em fala exige dezenas de decisões pequenas, e a soma delas define se a leitura soa natural ou robótica. Algumas das convenções adotadas, documentadas diretamente no código:
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Expoentes simples ficam compactos; expoentes compostos ganham marcadores. $x^2$ é lido “x ao quadrado”; já um expoente com vários termos recebe “início do expoente” e “fim do expoente”, evitando que a pessoa não saiba onde o expoente termina.
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O sinal de menos unário é sempre “menos”. Fórmulas como a resolvente do segundo grau começam com “menos b”, e não com uma pausa ambígua.
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Acentos seguem a fluidez da fala. Em conteúdo simples, o acento vem depois (“x barra”); em conteúdo composto, vem antes (“barra sobre P e Q”). Vetor é sempre prefixo: “vetor v”.
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Casos consagrados têm leitura consagrada. $A^{-1}$ é “A inversa”, e $\sin^{-1}$ é “arco-seno de”, porque é assim que se fala em sala de aula.
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Aplicação de função é restrita a letras de função. $f(x)$ vira “f de x”, mas $n(n+1)$ é lido “n abre parênteses n mais 1 fecha parênteses”, porque aqui os parênteses indicam multiplicação, e anunciá-los evita o falso positivo de “n de n mais 1”.
Para dar concretude, alguns exemplos de leitura gerada pelo motor, na forma compacta. O limite fundamental da trigonometria, $\lim_{x \to 0} \frac{\sin x}{x} = 1$, é lido como “o limite, quando x tende a zero, início da fração, seno de x, sobre, x, fim da fração, é igual a, 1”. A integral $\int_{0}^{\infty} e^{-x^2} dx$ vira “a integral de 0 até infinito de e elevado a, início do expoente, menos x ao quadrado, fim do expoente dx”.
A soma dos primeiros números naturais, $\sum_{i=1}^{n} i = \frac{n(n+1)}{2}$, é lida como “o somatório de i, para i de 1 até n, é igual a, início da fração, n abre parênteses n mais 1 fecha parênteses, sobre, 2, fim da fração”. E a notação de derivada $\frac{dy}{dx}$ não é tratada como fração qualquer: o motor a reconhece e lê, diretamente, “derivada de y em relação a x”.
Repare, nos exemplos, que cada leitura tenta reproduzir a fala de uma pessoa docente, e não a estrutura interna do código. É essa a régua de todas as convenções: a pergunta nunca é “como o LaTeX escreve”, e sim “como uma boa professora falaria”.
O resultado dessas convenções pode ser conferido neste próprio artigo: as fórmulas exibidas aqui são narradas pelo motor do Fala Fórmula, embarcado neste site.
O caminho inverso: da fala para a notação
Há um caminho oposto, igualmente importante: escrever matemática. A literatura sobre o tema concentra-se quase toda no acesso ao conteúdo, e raramente na produção autônoma, uma ausência que a revisão conduzida para este trabalho encontrou de forma consistente.
Pessoas com deficiência visual costumam compor textos por voz, mas a fala natural raramente coincide com a sintaxe do LaTeX.
A camada reversa da ferramenta interpreta frases como “x ao quadrado mais y ao quadrado igual r ao quadrado” e gera o LaTeX correspondente, $x^{2}+y^{2}=r^{2}$. Na interface, essa capacidade é acionada pelo botão “Ditar”: a pessoa fala a fórmula ao microfone, com limite de trinta segundos por gravação, a fala é transcrita, e a ferramenta apresenta um painel de revisão com o texto reconhecido e a fórmula resultante, no qual é possível editar e reconverter antes de aplicar ao editor. A pessoa decide se o resultado substitui o conteúdo atual ou entra na posição do cursor.
Extração a partir de imagens e PDFs
A pessoa que recebe um material já pronto, como a página digitalizada de um livro ou o PDF de uma lista de exercícios, pode carregá-lo diretamente na ferramenta. Modelos de inteligência artificial executados na infraestrutura do projeto extraem a fórmula e a devolvem em LaTeX, já com a leitura acessível correspondente.
O arquivo enviado é analisado e descartado após o processamento; nada fica armazenado.
Aqui cabe a mesma honestidade aplicada ao restante do artigo: extração por inteligência artificial é reconhecimento, não certeza. Kortemeyer (2023), ao avaliar o uso de modelos de linguagem para converter LaTeX em conteúdo acessível, documenta tanto resultados promissores quanto o risco central, o de a ferramenta interpretar o conteúdo em vez de traduzi-lo, com omissões difíceis de detectar. Por isso o fluxo do Fala Fórmula mantém a pessoa no circuito: o resultado da extração chega como proposta editável, com pré-visualização e leitura, e não como verdade automática.
Vozes em português: síntese no próprio navegador
A reprodução auditiva na interface usa, por padrão, vozes neurais do projeto Piper, executadas localmente no navegador da pessoa, sem enviar texto a servidores. Duas vozes em português brasileiro estão disponíveis, “faber” e “cadu”, escolhidas em escuta comparativa entre as alternativas gratuitas; a primeira leitura instala a voz no dispositivo, e o seletor informa o tamanho do download.
Quem prefere pode usar as vozes do próprio sistema operacional, pela Web Speech API (MOZILLA, 2024), que também funciona como alternativa automática enquanto a voz principal é baixada. A velocidade de leitura é ajustável entre a metade e o dobro do ritmo normal.
Vale sublinhar o que essa arquitetura significa para a privacidade: a conversão de LaTeX em texto, a renderização visual e a síntese de voz acontecem inteiramente no dispositivo. Dos recursos da ferramenta, apenas o ditado e o envio de imagem trafegam dados para fora do aparelho, ambos com descarte imediato do material após o processamento, e ambos claramente sinalizados na interface.
Validação
O Fala Fórmula passou por validação com participação humana. Ao todo, participaram 47 pessoas com deficiência visual: 39 pessoas cegas e 8 pessoas com baixa visão. Esse grupo avaliou a ferramenta em diferentes situações de uso, incluindo navegação por teclado, uso com leitores de tela, acesso em dispositivos móveis, uso com lupa eletrônica e validação da leitura textual das expressões matemáticas.
A participação ocorreu por meio do acesso à ferramenta e do registro das percepções em um formulário do Google Forms. O convite foi divulgado pelo LinkedIn, o que possibilitou a participação de pessoas de diferentes regiões do país.
Os resultados indicam que a ferramenta reduz de forma significativa a carga cognitiva envolvida na interpretação das expressões matemáticas. Todas as pessoas participantes relataram que o Fala Fórmula facilita a compreensão inicial do que a expressão representa, permitindo concentrar o esforço cognitivo na resolução ou análise matemática, e não na tentativa de decifrar a estrutura da notação.
Um feedback recorrente destacou que a ferramenta contribui para a leitura e o uso de materiais didáticos, mas que o LaTeX, como método de entrada, exige um processo de “alfabetização” para funcionar como uma espécie de Braille matemático digital. Por isso, pode ser interessante desenvolver uma notação simplificada para escrever expressões, reduzindo caracteres suplementares e priorizando a estrutura dos elementos matemáticos.
Além da validação com participantes, a ferramenta também conta com validação técnica automatizada. O motor é acompanhado por um corpus de regressão com 260 expressões, para as quais ficam registradas as saídas em leitura compacta e detalhada, a conversão reversa e a estrutura gerada para tabelas.
A suíte principal reúne 397 verificações automatizadas, distribuídas em cerca de vinte arquivos de teste que cobrem o analisador, os contextos, a camada reversa, física, química e a integração com a página. Esse conjunto roda em integração contínua, impedindo que alterações cheguem ao site sem passar pelos testes.
Algumas limitações permanecem conhecidas e assumidas. A multiplicação implícita não verbaliza “vezes”: $4ac$ é lido como “4 a c”, convenção que preserva a concisão, mas exige familiaridade. A probabilidade condicional escrita com barra vertical simples exige o comando \mid para ser lida como “dado que”.
Como toda ferramenta web dinâmica, o Fala Fórmula também depende de JavaScript, embora essa dependência seja mitigada porque a descrição acessível é inserida no conteúdo em tempo de execução, no navegador da pessoa usuária, sem depender de serviços externos.
Ferramenta disponível para uso
O Fala Fórmula está disponível para uso público no seguinte endereço: https://fala-formula.pcdnaescola.com.br/(abre em nova janela). A ferramenta pode ser acessada gratuitamente por qualquer pessoa interessada, sem necessidade de cadastro ou pagamento.
A seguir são destacados os principais aspectos da interface, na sequência em que uma pessoa os encontra ao usar a ferramenta.
1. Editor com pré-visualização e texto acessível
O centro da ferramenta é um editor de texto no qual a expressão é digitada ou colada em LaTeX. Enquanto a pessoa digita, duas saídas são atualizadas em tempo real: a pré-visualização visual, desenhada pela KaTeX, e o texto acessível, exatamente como o leitor de tela o narrará.
O bloco “Texto acessível” mostra a descrição gerada. Para a fórmula de Bhaskara, a leitura compacta é: “x, é igual a, início da fração, menos b mais ou menos raiz quadrada de b ao quadrado menos 4 a c, fim da raiz, sobre, 2 a, fim da fração”. Repare que, mesmo na leitura compacta, a fração recebe marcadores de início e fim: o numerador tem vários termos, e sem os marcadores a ambiguidade voltaria. Na tela, os marcadores estruturais aparecem visualmente destacados dentro do texto, o que ajuda também quem enxerga a entender de onde vem cada pedaço da narração.
2. Exemplos, símbolos e recentes
O botão “Exemplos e Símbolos” abre um painel com três abas, pensado para quem está chegando agora e ainda não domina os comandos LaTeX. A aba “Exemplos” reúne fórmulas clássicas prontas, organizadas por área (aritmética e frações, cálculo, álgebra e vetores, trigonometria e geometria, lógica e conjuntos, tabelas de dados, física e química), da equação do segundo grau à identidade de Euler: um clique insere a fórmula no editor, já com a leitura gerada. Um campo de filtro busca pelo nome.
A aba “Símbolos” funciona como uma paleta que dispensa memorizar comandos: estruturas (fração, raízes, expoente, índice), matrizes, tabelas de dados, operadores de cálculo, letras gregas e a notação de física e química são inseridas com um clique na posição do cursor.
A terceira aba, “Recentes”, guarda as últimas dez expressões usadas, com persistência local no navegador: nada é enviado a servidores, e um botão “Limpar histórico” apaga tudo quando a pessoa quiser.
3. Contexto e detalhamento
Acima do editor ficam os dois seletores que ajustam a leitura. O seletor “Contexto” escolhe um dos onze domínios já descritos, do padrão à química, e uma dica ao lado lembra quais símbolos ambíguos ele afeta.
O seletor “Detalhamento” alterna entre a leitura compacta, mais curta de ouvir, e a detalhada, que marca início e fim de expoentes, frações, raízes e índices.
O efeito do contexto é imediato. No contexto de estatística, o teorema de Bayes, $P(A \mid B) = \frac{P(B \mid A) \, P(A)}{P(B)}$, é lido como “P de A dado que B, é igual a, início da fração, P de B dado que A P de A, sobre, P de B, fim da fração”: a barra vertical vira “dado que”, exatamente como a pessoa docente falaria em aula.
4. Ouvir: vozes e velocidade
O botão “Ouvir” reproduz o texto acessível em voz alta na própria página, e vira “Parar” durante a leitura, com um botão “Pausar” ao lado. O painel de voz permite escolher entre as vozes Piper em português brasileiro e as vozes do sistema, e ajustar a velocidade entre 0,5 vez e 2 vezes.
Esse recurso serve a públicos diferentes: a pessoa cega pode preferir o próprio leitor de tela e usar o “Ouvir” apenas para conferir a prosódia; a pessoa docente usa o “Ouvir” para saber exatamente o que a pessoa cega escutará.
5. Ditar: a fórmula entra pela voz
O botão “Ditar” ativa o microfone e abre uma região de status que informa o tempo decorrido e o limite de trinta segundos, com medidor de volume. Ao terminar, a transcrição aparece em um painel de revisão com duas seções, “Você disse” e “Fórmula reconhecida”, esta última já com a pré-visualização desenhada.
A pessoa pode editar o texto e reconverter, escolher entre substituir o conteúdo do editor ou inserir na posição do cursor, aplicar, falar de novo ou descartar. Durante todo o fluxo, as mensagens são anunciadas por regiões dinâmicas acessíveis, e o foco do teclado é conduzido ao painel de revisão ao final da transcrição, para que quem usa leitor de tela não se perca na página.
A interface avisa, antes de qualquer gravação, que o áudio é transcrito por inteligência artificial e descartado.
6. Carregar imagem ou PDF
O botão “Carregar imagem ou PDF” aceita arquivos PNG, JPEG, WebP ou PDF de até 4 MB. A fórmula contida no arquivo é extraída por inteligência artificial e devolvida em LaTeX no editor, com a leitura acessível gerada em seguida, no fluxo de revisão descrito anteriormente. Como no ditado, a interface avisa que o arquivo é analisado e descartado, e nada fica armazenado.
7. Copiar e compartilhar
Três botões transportam o resultado para fora da ferramenta. “Copiar LaTeX” leva o código para apostilas e trabalhos; “Copiar Texto” leva a descrição acessível, pronta para acompanhar uma fórmula em um material didático; e “Copiar link” gera um endereço desta página já com a expressão preenchida, incluindo o contexto e o detalhamento escolhidos, pronto para ser enviado a outra pessoa.
É a forma mais direta de uma pessoa docente mandar uma fórmula falada para a turma: quem abre o link encontra a expressão carregada, com leitura e áudio disponíveis.
8. Tabelas de dados que se leem linha a linha
Além de fórmulas, o motor reconhece o ambiente tabular do LaTeX e o converte em tabela HTML verdadeiramente semântica, com cabeçalhos de coluna, e não em uma matriz de números soltos.
Na leitura, cada célula é anunciada com o nome da sua coluna: para uma tabela de países e populações, a leitura é “Tabela de dados, 2 colunas: País, População. Linha 1: Brasil, 203 milhões. Linha 2: Portugal, 10 milhões. fim de tabela”.
O botão “Ouvir” percorre a tabela linha a linha, e células podem conter matemática.
9. Física e química no mesmo motor
Nos contextos de física e de química, o motor entende a notação científica do LaTeX: equações de reação com \ce, grandezas com unidades com \pu, cargas, isótopos, setas de reação, equilíbrios químicos e estados físicos.
A equação da formação da água, \ce{2H2 + O2 -> 2H2O}, é lida na forma compacta como “2 H 2 mais O 2 produz 2 H 2 O”, com a seta de reação verbalizada como “produz”.
Na leitura detalhada, a química vai além dos símbolos e nomeia as espécies: o íon \ce{SO4^{2-}} deixa de ser uma sequência de letras e números e é lido, simplesmente, como “íon sulfato”.
Essa extensão aproxima o Fala Fórmula da tabela periódica acessível(abre em nova janela): juntas, as duas ferramentas cobrem a consulta aos elementos e a leitura das equações que os combinam.
10. Uma interface que também é acessível por dentro
Seria uma contradição construir uma ferramenta de acessibilidade cuja própria interface excluísse alguém. Por isso, o funcionamento interno do playground aplica os mesmos padrões de HTML semântico e WAI-ARIA que orientam os critérios de acessibilidade da ferramenta.
As mensagens de estado, como o andamento de uma transcrição, são anunciadas por uma região dinâmica educada, que fala sem interromper o que a pessoa estava ouvindo. Os erros, como uma falha de rede ou um arquivo não suportado, usam alertas que permanecem visíveis até serem fechados, em vez de desaparecerem antes que o leitor de tela os alcance, e oferecem o botão de tentar de novo.
Após uma transcrição bem-sucedida, o foco do teclado é conduzido ao painel de revisão; em caso de erro, à mensagem de alerta. As abas do painel de exemplos navegam-se com as setas, como manda o padrão de componentes acessíveis, e os botões que alternam estado expõem essa condição à tecnologia assistiva.
A tecla Esc funciona em cascata: interrompe a gravação se houver uma em andamento, senão fecha o painel aberto, senão dispensa os alertas.
A pré-visualização visual das fórmulas, por sua vez, carrega o atributo que a esconde do leitor de tela, para que a narração venha sempre da descrição textual, sem duplicação. E os controles da barra de acessibilidade do próprio site, como o modo claro, o alto contraste e o ajuste de tamanho do texto, valem também dentro da ferramenta.
Um motor, várias portas
O playground é a porta de entrada mais visível, mas o motor de leitura é uma biblioteca independente, e isso multiplica os usos. Neste site, os artigos que exibem fórmulas, como os da série sobre LaTeX, são narrados por esse mesmo motor: cada expressão publicada ganha, automaticamente, a sua descrição acessível.
Essa reutilização é deliberada. Uma convenção de leitura, uma vez decidida, deve soar igual em todos os lugares em que a pessoa a encontrar, do artigo ao PDF; a consistência entre contextos é, ela própria, um atributo de acessibilidade, como a inconsistência dos textos alternativos improvisados, criticada no início deste artigo, é um defeito.
Considerações Finais
Este artigo apresentou o Fala Fórmula, ferramenta gratuita e aberta que converte expressões matemáticas em LaTeX para texto acessível em português brasileiro, desenvolvida para reduzir uma lacuna específica e persistente no ensino: a indisponibilidade de leitura natural de fórmulas, em ambientes digitais, a partir da notação em que elas de fato circulam.
A linguagem matemática, embora aparentemente universal, é fundamentalmente visual, e traduzir sua bidimensionalidade para fluxos sonoros não é trivial. O percurso feito aqui mostrou que as soluções existentes atacam partes diferentes do problema: o Braille resolve a leitura tátil de quem tem fluência e material impresso; o MathML descreve a estrutura, mas depende de suporte heterogêneo; o Math2Text e o Access8Math-NavMatBR narram em português brasileiro o que já foi convertido para MathML; e os motores internacionais de referência, MathCAT e Speech Rule Engine, simplesmente não falam a nossa língua.
O Fala Fórmula ocupa o espaço que restava: a leitura, em português brasileiro, do LaTeX bruto, sem conversão prévia, sem instalação, com sensibilidade ao domínio matemático e com o caminho de volta, da fala para a notação, que devolve à pessoa com deficiência visual também o papel de quem escreve matemática, e não só de quem a consome.
Como contribuição prática, o projeto disponibiliza, sem custos, uma ferramenta incorporável a aulas, materiais didáticos, avaliações e produções acadêmicas. No plano conceitual, reforça que acessibilidade não é complemento opcional ao desenho de produtos digitais, e sim requisito estruturante, em consonância com o Desenho Universal e com a Lei Brasileira de Inclusão (BRASIL, 2015; BERSCH, 2017).
As limitações também ficaram registradas. A cobertura semântica do analisador, embora ampla, não esgota as sutilezas da notação, e convenções como a multiplicação implícita sem “vezes” estão documentadas e assumidas.
A pesquisa reforça, por fim, a importância de considerar a diversidade das pessoas com deficiência no desenvolvimento de recursos educacionais. Promover uma educação inclusiva, equitativa e centrada na autonomia de pessoas estudantes não é gesto de boa vontade nem cortesia institucional.
É obrigação derivada da Constituição Federal, da Lei Brasileira de Inclusão e, antes de tudo, do reconhecimento de que toda pessoa estudante tem direito a aprender Matemática em condições de equidade.
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Comentário da autora
É essa descrição, e não o desenho, que o leitor de telas narra.